«a história da mulher que fugiu a cavalo, publicada em livro no ano 1928, surgia na literatura como visío gélida da aventura da mulher branca entre homens de pele escura e expostos ao seu olhar num cúmulo de exuberância física. a mulher branca iria desta vez enfrentá los com uma absoluta indiferença pelo seu atractivo sexual; e, pelo seu lado, sentir se ia apenas vista como objecto assexuado entre homens faustosamente dotados para as relações físicas. a mulher que fugiu a cavalo vê se entre índios que a elegem como sua mensageira solar. fugida do tédio do casamento para uma aventura que começara envolta num tolo romantismo, ainda mais irreal do que o existente nas raparigas, acedia à hiperlucidez conferida pelas drogas e, com ela, à complacência perante o seu destino de vítima oferecida a um supremo poder. porque aqueles índios viviam uma má época da sua história, roubados pelo homem branco no que tinha sido um seu ancestral poder. dizia lhes uma crença que a grande força geradora seria obtida com o encontro astronómico do sol e da lua; e que em esplendorosos tempos esta impossível conjunçío celeste era indirectamente obtida descendo o sol até ao homem índio, descendo a lua até à mulher índia, para no seu encontro físico e terrestre se multiplicar o poder. a apariçío do homem branco tinha feito o sol e a lua zangarem se, tornando os encontros físicos do homem índio e da mulher índia estéreis quanto a essa força vital. mas bastaria o índio mostrar se capaz de dominar o homem branco, oferecendo a sua mulher ao sol, para o astro supremo voltar a penetrar no homem índio, a lua voltar a entrar na mulher índia, e a sua conjugaçío restituir lhes a força perdida. para cenário desta oferenda d.h. lawrence lembrou se de uma gruta que visitou num dos seus passeios a cavalo nos arredores de taos, a regiío dos índios adoradores do sol; que o tinha impressionado pela cascata à frente da entrada, e que formava durante o inverno uma gigantesca estalactite de gelo suspensa como um dardo sobrenatural.» aníbal fernandes
